História da Cetraria
    Aves de Presa
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    Prática
As aves de Presa, em linguagem cetreira, são divididas de acordo com alguns aspectos práticos que passamos a referir:

- "Nobres" e "ignóbeis!": Referem-se a certos atributos psicológicos e físicos que determinam ou não capacidades especiais de rapidez de voo, de formas de atacar, de prear, até mesmo diferenças de alimentação: aquelas que, no seu meio natural, não se alimentam de cadáveres, possuem um psiquismo próprio, são rápidas e fulminantes em seus voos de caça. Estas são as "nobres", os diversos e verdadeiros Falcões (género Falco) e os Açores e Gaviões (género Accipiter). As "ignóbeis" são todas as outras aves rapaces, incluindo as águias: alimentam-se de cadáveres, são de um modo geral de evolução lenta em seus voos, possuem um psiquismo diferente, mais oportunista que as antecedentes.

- De "alto-voo" e de "baixo-voo": Dentro das aves "nobres" - as autênticas aves de Cetraria - há que distinguir as de "alto-voo" - os Falcões - e as de "baixo-voo" - os Açores e os Gaviões.

- Idades, plumagens e sexos: As aves de Cetraria mudam as suas penas uma vez por ano. Daí contar-se-lhes a idade pelo número de mudas efectuado, dizendo-se, por exemplo, que "tal ave tem tantas mudas". e "Entremudado", se fez somente a primeira muda, conservando ainda, por conseguinte, algumas das penas de juvenil. A ave "nobre" de sexo masculino é em Cetraria designada por "terçó" e a de sexo feminino por "prima", em razão dos "terçós" terem, segundo se afirma, cerca de um terço menos que o tamanho dos "primas". Uns e outros têm as suas vantagens em Cetraria: os "terços" são mais ágeis, os "primas" são mais poderosos. (Em Cetraria as aves "nobres" são referidas no masculino).


a) Exemplos de Aves nobres de alto-voo, (Falcões), e nome dado na linguagem cetreira medieval e respectivo nome cient:

- NEBRI (Falco peregrinus peregrinus). Considerado em Cetraria como "príncipe das aves de caça", é a subespécie do norte da Europa do Falcão-peregrino, o protótipo da raça. Tem, adulto, de l Kg a 1,300 Kg de peso. O termo "Nebri" era usual na Península. Há quem atribua a origem deste vocábulo - que em castelhano se diz "Nebli" - ao nome da cidade espanhola de Niebla, na suposição de ter ali existido uma antiga escola de Cetraria. Universalmente designado por "Peregrino", devido ao facto das suas peregrinações de nómada, sobretudo na fase adolescente.

- BAFARI {Falco peregrinus brookei). Subespécie mediterrânea do Falcão-peregrino, de 500 gr a l Kg de peso (mínimo para "terçós", máximo para "primas"). Mais curto que o "Nebri", mais compacto de estrutura, mas muito semelhante. É o "Peregrino" residente na Península Ibérica. Também se denomina "BAHARI"- palavra arábica que significava, para os arábicos do norte de África, marinho e talvez nortenho, o que estaria perfeitamente certo em relação à nossa Península.

- TAGAROTE (Falco peregrinus pelegrinoides). Foi também chamado "Falcão de Barbaria" e é uma subespécie mais pequena do Falcão-peregrino, habitante do norte de África e existindo também nas ilhas de Cabo Verde. É muito ágil e rápido. Afirmavam os antigos falcoeiros norte-africanos que se capturavam nas rochas da ribeira de Tagaros, vindo-lhes daí a designação de "Tagarotes". Eram, pelo seu pequeno tamanho, falcões próprios para damas. (Há outras subespécies de "Peregrinos" noutras regiões do globo, além das aqui mencionadas, também usadas em falcoaria ).

- GERIFALTE (Falco rusticolus). Falcão árctico, com variadas raças e plumagens - do cinzento-escuro ao branco puro. Os mais belos são os "letrados", assim designados e na antiga Cetraria portuguesa por terem a plumagem branca com pequenos pontos negros, à maneira de letras. É o maior, mais vigoroso e o mais formoso dos Falcões. Chega aos 2 Kg de peso. Têm a faculdade de poder subir, em voo de caça, até ao alto, quase na vertical. Na Idade Média eram considerados autênticas jóias.

- SACRE (Falco cherrug). Falcão dos desertos e das estepes asiáticas e da Europa oriental.

- ESMERILHÃO (Falco columbaríus). Pequeno falcão com o peso de 250 gr. É muitíssimo valente e veloz. É o ideal para a caça de codornizes "à vista". Contudo, ataca briosamente alcaravões, pombos, perdizes. A sua nidificação ocorre na Europa do norte e Ásia.


b) Aves nobres de baixo-voo, ou de punho (Açores, Gaviões, Aleto):

- AÇOR (Accipiter gentilis). É a ave clássica da caça em "baixo-voo". Os Açores caçam partindo em perseguição directa desde o punho enluvado do caçador, "à vista", "a braço-tornado" ou "em mão-por-mão". As suas perseguições são rápidas, impetuosas, eficientes, vencendo perfurante todos os obstáculos, em elegantes esquivas com incrível agilidade até alcançarem a presa. Podem caçar em qualquer género de terreno, na planície como na montanha, em terreno limpo ou por entre arvoredos e matagais e tanto caçam "pena" como "pêlo". Devido à cor dos seus olhos, de íris doirada e muito brilhante, que com a idade pode chegar ao vermelho quase rubi, os antigos gregos denominavam esta ave por "asteria" - estrela, brilhante, luminoso - de cujo vocábulo procede o latino "astur" (astro?), o castelhano "astor" (antigo) e "azor" e o português "açor". Atribui-se ao facto da luminosidade dos olhos do Açor o costume de não os ocultar com "caparão", afim de não menosprezar a beleza do seu brilho. Na verdade, normalmente, não se usa em Cetraria "caparão" para os Açores.

- GAVIÃO (Accipiter nisus). É uma miniatura de Açor. Caça animosamente de perdizes para baixo, sobretudo codornizes.·


c) Aves ignóbeis (algumas Águias, de baixo-voo, ou de punho):

- ÂGUIA-REAL (Aquilo chrisaëtus). Em razão dos seus poucos méritos e atractivos como ave de caça desportiva, apesar da majestade e altivez do seu porte e da grandeza da sua envergadura, quase não era empregada na cetraria da Europa medieval. É que naquele tempo tinham as Águias como lentas, pesadas, incapazes dos ágeis e perfurantes voos dos Falcões e dos Açores e por isso impossibilitadas de fazer presa em peças que se furtassem em rápidos voos ou corridas. Foram e são ainda utilizadas principalmente na Ásia Central, na Rússia, entre tribos kirguises e os turcomanos, ao ponto de com elas, e com a colaboração de cães, chegaram a caçar lobos, raposas, panteras das neves e antílopes-saiga. Modernos cetreiros europeus tem-nas utilizado com êxito na caça às raposas, às lebres e aos corços.

- HARRIS HAWK (Parabuteo Unicintus). Habita os desertos do México e sul dos Estados Unidos. Tem tamanho semelhante ao do açor e com leque de predação semelhante a este. A sua grande sociabilidade faz dela a ave mais popular entre os adeptos da cetraria actual tendo granjeado adeptos que não poderiam abraçar esta arte com as espécies tradicionais.



Alimentação das aves de presa:

As aves de presa são ornitófagas e a sua alimentação deve aproximar-se o mais possível daquela que constitui o seu regime natural: pombos, codornizes, coração de borrego ou de boi (sem nervos nem gorduras), carne de frango (perna ou asa, pescoço, fígado, moela, coração, cabeças com as penas respectivas para favorecer as plumadas.

A carne deverá estar em boas condições higiénicas e de proveniência conhecida, uma vez que muitas das doenças que atingem as aves de capoeira são contagiosas às aves de presa. Como medida preventiva mas não totalmente segura, congelam-se as aves adquiridas antes de as fornecer como alimento. São impróprias as restantes carnes de talho e não deve nunca permitir-se que ingiram tubos digestivos e papos, a fim de evitar-se contaminação parasitária. Aves ou mamíferos abatidos com chumbos de caça não serão empregues na alimentação das aves de presa pois poderão sofrer envenenamento por chumbo. As aves de presa adultas devem ser alimentadas uma vez por dia, de forma a terem tempo suficiente a digerir a totalidade da refeição anterior. Alimentar uma ave que ainda não tenha feito a plumada pode ser extremamente perigoso.

Relativamente a quantidades, são, pelas mesmas razões, variáveis também. Mas, por exemplo, a uma ave adulta de tamanho médio, bastam-lhe, diariamente, à volta de 120 a 130 gr. de boa alimentação.




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